Minha avó costumava orgulhar-se
– Se cheguei aos setenta anos assim continuo pelo menos mais uns vinte
ajudante de enfermagem, hoje em seu funeral lembrava-me de como costumava me mostrar as seringas explicando que para achar a veia era necessário apertar bem forte o elástico, eu com os meus seis anos olhava-a como se pudesse curar qualquer doença, quando me resfriava era a vó trazendo os remédios, a vitamina C, o própolis para a garganta caso inflamasse
– Anda sempre doente o menino Carla
minha mãe tendo que ouvir mais uma vez suas recomendações, que não me deixasse brincar ao sereno, que fosse à minha escola ver como nos cuidavam. Hoje neste funeral
digo, neste cortejo longuíssimo
vejo minha avó deitada, as mãos sobre os seios que quando menino impressionavam-me por serem tão grandes, o volume em sua blusa, usava-os de almofada quando assistia televisão deitado em seu sofá, os doces que ela comprava na feira, gostava em especial daquele com recheio de goiabada
– Querido olha o que te trouxe
o apartamento em Copacabana ficava numa rua movimentadíssima mas era de fundos, ouviam-se os carros ao longe, a TV que assistíamos e ela gabando-se para mim
– Se cheguei aos setenta anos assim
fazendo-me cafuné, não sei o que pensaria depois da ponte de safena, aos oitenta não era mais a mesma, a dificuldade para levantar, tomava banho apenas com a ajuda da enfermeira
– Lave-me as costas devagar Cecília não vê que machuca
curvando-se
– Cecília um banco preciso sentar-me um pouco
hoje mais cedo passamos pela parte mais pobre do cemitério, a terra que cobria os caixões, não haviam lápides nem
Descanse em paz
nem datas, caminhávamos desviando os olhos dos urubus, a grama rala, a terra em nossos pés, os vira-latas com manchas pelo corpo, um deles seguiu-me de perto até onde minha avó seria enterrada, o alívio que foi quando avistamos os memoriais, as lápides imensas, os mausoléus, os
Descanse em paz
orações de padres e pastores pelo caminho, flores sendo jogadas dentro dos túmulos antes que se fechassem, por que flores sempre me perguntei, por que se morrerão no dia seguinte sem água, jogaram algumas também sobre o caixão da minha avó, as mãos sobre os seios enormes
– Lave-me as costas devagar Cecília
no hospital quando faleceu fui eu a escolher o caixão, aquele de madeira escura com a cruz dourada e o versículo, e claro também queremos a coroa de flores com a faixa
Com amor à nossa mãe e avó Júlia
tudo resolvido em meia hora, minha mãe incapaz de pronunciar qualquer palavra, meu irmão mais novo sentado à porta, o agente funerário perguntando-me se o enterro seria hoje mesmo, se queríamos vê-la ainda antes que fosse devidamente preparada, minha mãe hesitante
– Que mal há um minuto só
e chorando uma vez mais, afastando-se, o agente funerário poderia ser pago em cartão e a máquina ficava na portaria do hospital. Havia sido a segunda operação no coração mas a esta minha avó não resistiu, já estava enfraquecida demais, pensar que tudo isso foi hoje pela manhã, pensar que agora já está
Descanse em paz
debaixo da terra, nos últimos meses íamos com ela a qualquer pequeno evento que pudesse lhe interessar, sempre amou Clarice Lispector e quando soubemos que sairia uma nova biografia sobre a escritora levamo-la para o lançamento que teria a presença do autor, minha avó sentada na cadeira
– Estou ouvindo mas não aguento mais
tirando mais uma foto com o bisneto que não sabe o nome, falando baixinho à minha mãe
– Que dor filha que dor
e minha mãe colocando a mão em seu ombro, pedindo que se acalmasse afinal não era nada, que prestasse atenção no que o autor dizia sobre sua Clarice. Os familiares e amigos do hospital chegando hoje ao funeral, minha avó dizia a qualquer um que lhe fizesse um favor
– Obrigada passar bem
e assim livrava-se de ter que ver aquela pessoa novamente, imagino que se estivesse viva hoje diria a todos em volta de seu túmulo
– Obrigada passar bem
olhando-me de baixo pois já lhe ultrapassei a altura faz tempo
– Se cheguei
eu segundo minha avó um negro bem sucedido e bonito, visitava-a vez ou outra quando saía do trabalho no Centro de terno e gravata
– Querido olha
saímos do cemitério do Caju às seis da tarde, o padre nos acompanhou até a porta, que podíamos ligar quando quiséssemos, que contássemos com ele, tive vontade de agradecer e como minha avó
– Passar bem
mas não disse nada, minha mãe calada no carro até chegarmos em casa, não herdara os seios de minha avó mas também amava Clarice, certa vez lera-me algo como
Agradeço aos meus olhos que ainda se espantam tanto
eu que nunca terminei um livro, ficou-me a frase na cabeça, meus olhos hoje se espantam com esses vira-latas manchados, os túmulos sem lápides, espantam-me os seios fartos de minha avó desaparecendo quando os coveiros fecharam o caixão, desciam-no com cordas, a madeira resvalando no concreto que ladeava o buraco, as flores por cima, as coroas colocadas de lado, espantam-me as flores caindo dentro do buraco
– Que dor filha
não pude olhar, o agente funerário ainda vai mas essas flores
– Cecília um banco preciso sentar-me
essas flores que morrerão sem água, a veia, os elásticos apertados, as seringas, minha avó chegando com os remédios
– Anda sempre doente o menino
eu brincando no sereno junto às lápides
– Anda sempre
de paletó cinza acompanhado dos vira-latas manchados, tomando minha vitamina C como haviam-me acostumado, minha avó curaria o que fosse, poderia brincar ao sereno sem maiores preocupações que traria o própolis, traria
– Cecília um banco
o que fosse, dávamos voltas longuíssimas com o cortejo e ela
– Passar bem
para todos, as flores continuavam caindo, resvalando nas paredes de concreto do buraco e atingindo a madeira escura do caixão que agora via-se cada vez menos, espantam-me sobremaneira essas flores, flores sobre a tampa do túmulo, flores pelo chão que provavelmente teriam sobrado nos cestos dos que estavam por ali.
3 meses atrás
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