28 de jul de 2009

estado de caravana – tatiana oroño

"A vida seria um grande gole amargo, não fosse a escrita. Eu escrevo e reescrevo. Vou fazendo escala em meus rascunhos intermináveis. As teclas de deletar, cortar e colar trabalham mais que as outras vinte e tantas do alfabeto.

Escrevo “faço escala” mas penso “faço minha casa”. Não entendo por que escrevo diferente do que penso. Talvez porque, ao escrever, vou corrigindo o que penso, e desta maneira crio um espaço mais habitável, onde os pensamentos consigam se relacionar. Se sacrifico um pensamento isolado, se não o escrevo, é com o intuito de dar lugar a mais pensamentos, que possam então conviver, como seres humanos que precisam uns dos outros. Ou que se juntam para passar a noite. Um pensamento isolado é tão imóvel quanto um objeto – seja carretel, ladrilho, botão ou casca de ovo – e serve para qualquer coisa, menos para continuar escrevendo. Apenas junto com outros pensamentos ele servirá de proteção.

As páginas, os rascunhos, protegem da vida. Que é imprevisível.

Vive-se, no que diz respeito ao ofício de escrever, em estado de caravana. Vive-se e é preciso justificar essa oportunidade única. No Uruguai, uma mulher que escreva apesar dos filhos, da ditadura, do desemprego, do divórcio, da destituição, restituição e dos trâmites da aposentadoria, certamente esteve só. Não acumulou experiência porque, na verdade, não soube o que viria adiante. Não há conquista do Oeste, nem cruzadas, nem êxodo, nem nada que se pareça com um esboço inicial ou um mapa. Há episódios. Que são varridos por outros. Como rajadas de vento. Ainda que a memória se pegue a alguns deles e não solte.

A vida vale pouco, quase nada, ou nada. Depende. A vida de uma mulher sozinha e com responsabilidades tem um valor escasso e oscilante. Como a caravana, quando a vemos ao longe, ficando cada vez menor, balançando.

Contudo, olho tudo de perto e toco sempre que posso. Há pessoas que sabem o que fazem. Alguém lhes ensinou os mapas. Traçam planos e os trazem prontos. Conhecem o rumo. Os pontos de chegada. Sei disso não porque o dizem, mas exatamente pelo contrário. Olhar de perto permite-me distinguir entre eu e eles. Medir as diferenças. Pesar minhas desvantagens. Passar e passar novamente – como se isso se tratasse de um trabalho de passamanaria – os fios de enlace e desenlace que unem e separam. Levar em conta, numa escala previsível, a velhice, e seus adereços descosturados. Levar em conta as derrotas e seus cacos. E os anos que passaram como uma faixa que se enrola ao redor do corpo. Levar em conta os signos da escrita e trabalhá-los tal qual se faz em ponto-cruz. De olho. De olho fixo no ajuste das bainhas e na leveza recente de fios e tranças, em suas transparências de fundo. Escrever como bordar. Interrompendo a cada tanto. Retomando quando possível. Ser escritora porque não fui costureira. Porque a vida só faz escalas em sua duração. E não a excede. Como se ela percorresse uma página ou uma renda."


OROÑO, Tatiana. "Estado de caravana", in La piedra nada sabe. Montevidéu: Casa Editorial HUM, 2008, pp. 77-78. Tradução minha.

Tatiana Oroño é uma escritora uruguaia contemporânea muito interessante. Também é professora de literatura e crítica literária. Conhecer o trabalho dela vale a pena. Agora o blog terá também, eventualmente, traduções minhas de textos que sejam inéditos em português. Abaixo, o texto original.



"La vida sería un largo trago amargo si no fuera porque se escribe. Yo escribo y reescribo. Voy haciendo escala en borradores de borradores. Las teclas de suprimir, cortar y pegar trabajan más que las veintitantas del alfabecto.

Escribo 'hago escala' pero pienso 'hago mi casa'. No sé por qué escribo distinto a lo que pienso. Será porque al escribir voy corrigiendo lo que pienso y de esa manera voy haciendo un espacio más habitable para que los pensamientos se relacionen. Si sacrifico un pensamiento aislado, si no lo escribo, es para hacerle lugar a más de uno. A la mayor cantidad de los que puedan convivir como gente que se necesita. O que se junta para pasar la noche. Un pensamiento inmóvil como un objeto – carretel, ladrillo, botón, cáscara de huevo – que sirve para algo sí, pero no para seguir escribiendo. Sólo si se intercala con otros pensamientos es que sirve para protegerse.

Las páginas, los borradores, protegen de la vida. Que es imprevisible.

Se vive, en lo relativo al oficio de escribir, en estado de caravana. Se vive y hay que justificar esa única oportunidad. Una mujer que escriba, en Uruguay, mientras pasan los hijos, la dictadura, el desempleo, el divorcio, la destitución, la restitución, los trámites de jubilación, es seguro que estuvo sola. No acumuló experiencia porque en realidad no se supo qué venía más adelante. No hay conquista del oeste, ni cruzadas, ni éxodo, ni nada que se parezca a un dibujo previo, a la página de una cartografía impresa. Hay episodios. Son barridos por otros. Como rachas del viento. Aunque la memoria se abrace a algunos y no los suelte.

La vida vale poco, casi nada, o nada. Según. La vida de una mujer sola y con responsabilidades tiene un valor escaso y oscilante. Como la caravana, si se la mira mientras se va haciendo cada vez más chica, bamboleándose.

Pero yo miro de cerca y palpo siempre que puedo. Hay gente que sabe lo que hace. Alguien les enseñó los mapas. Trazan planes o los traen trazados. Conocen el rumbo. Los puntos de llegada. Me doy cuenta no porque lo digan, sino por lo contrario. Mirar de cerca permite discriminar entre ellos y yo. Medir las diferencias. Tomar en peso mis desventajas. Pasar y repasar como si se tratara de una labor de pasamanería los hilos de enlace y desenlace que unen y separan. Tomar en cuenta, escala previsible, la vejez, y sus cuentas desenhebradas. Tomar en cuenta las derrotas y sus añicos. Y los años corridos como una cinta que se arrollara alrededor del cuerpo. Tomar en cuenta los signos de escritura y labrarlos como una labor de punto. De ojo. De ojo puesto en el ajuste de los engarces y en la levedad reciente de hilos y torsiones, en sus transparencias de fondo. Escribir como si se bordara. Interrumpiendo cada tanto. Retomando cuando se puede. Ser escritora porque no fui encajera. Porque la vida sólo hace escala en su duración. Y no la desborda. Como si recorriera, ella, una página o una puntilla."

20 de jul de 2009

cuba: a realidade de um sonho

Começou na quinta e fica até dia 22 de agosto a exposição Cuba: a realidade de um sonho, com fotos de três fotógrafos, dentre eles meu pai, Marcos Malugani.


Galeria do Convento
Rua Primeiro de Março, 101 – Praça XV – Centro
segunda à sexta de 12h às 18h
sábados de 10h às 14h.