14/02/2011

violeta (4)

Quem era a Violeta? Penso nisso enquanto caminho pelo jardim frontal daquela casa no Prado, onde ela e o marido viveram colados com meus avós, e a Marta, filha da Violeta, nos fundos com os gêmeos. Acho que se conhecemos alguém apenas quando crianças, a memória que temos dessa pessoa fica diferente, meio saudosista. Como se não a tivéssemos conhecido o suficiente, como se faltasse saber algo que uma criança teria sido incapaz de compreender. E que vem a existir quando alguém, anos depois, nos conta sobre ela. Mas ao mesmo tempo fica mais doce lembrar assim. É através do meu pai e da minha avó que fico sabendo mais da Violeta.

Da casa do Prado lembro também do sol que entrava pela cozinha, minha avó preparando milanesas e ensalada rusa, o quintal lá fora tão convidativo. Sempre me empanturrava com aquelas comidas incríveis. Antes de ir para o asilo, a Violeta já chegava falando alto e rindo, rindo muito de alguma coisa, o que logo provocava gargalhada geral. Eram, minha avó e ela, espécie de Marta e Maria: enquanto minha avó vigiava o molho no fogo, a Violeta ficava na mesa com a gente, dando risada e contando história. Comigo ela adorava brincar de “medir o braço”; claro, como o dela era maior, alcançava com a mão a minha axila e começava mais uma sessão de cócegas. Lembro de poucas coisas que ela me falou diretamente. Mas sua risada tenho perfeitamente registrada.

E depois o começo do alzheimer, o silêncio cada vez maior. Então ela apenas sorria, não gargalhava mais. Me causava uma impressão muito forte esse riso silencioso. Parecia que queria rir de algo, mas não conseguia lembrar exatamente do quê. Conservou por isso o sorriso no rosto, e assim nos olhava quando chegávamos por lá.

No dia em que faleceu não pude ir ao Uruguai. Meu pai sim, ligou de lá, muito triste. Acho que, se eu tivesse ido, teria pedido que a maquiassem de forma que seus lábios formassem esse sorriso. Seria o ápice da risada silenciosa. Soube que o cemitério onde ficou era praticamente um parque, de tão grande e arborizado. Será que havia parreiras formando sombras cheias de bolotas? E aquela cadeira de balanço laranja e branca? E quem apareceria fazendo cócegas em todas as crianças reunidas ali?

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3 comentário(s); clique aqui para comentar:

carolina ribeiro disse...

beautiful, as usual...

Fernanda. disse...

miguel, vim aqui ler vc!

um abraço!!!!=)

Anônimo disse...

Linda msm! Que viagem eu fiz
bjs Cristina