09/01/2010

abra as janelas assim o quarto respira

– Abra as janelas assim o quarto respira

cresci com essa ideia de cômodos sufocados após uma noite de sono, abro as janelas levanto a tela de mosquitos e pronto eis o quarto respirando, eis o vento levantando as cortinas e secando a cama cheia de suor

– Como pode suar tanto durante a noite Clarice

posso, reviro-me durante a noite, esses pesadelos que não param de vir, repetem-se, estou correndo na praia e tanta chuva contra meus olhos, o céu escuro o mar escuro a espuma branca das ondas imensas, quantas ondas que vão tomando toda a areia, o nível do mar subindo e já não vejo meus pés, a chuva espessa como o mar, tudo cinza à minha volta e logo negro e logo minha tia abrindo a porta

– Como pode suar tanto

assustando-se mais uma vez com a cama molhada, criou-me sozinha dado que meu pai desconhecido e minha mãe morta no parto, como terá sido esse dia no hospital, uma vida chegando e outra partindo, terão comemorado meu nascimento, os hospitais que muitas vezes quase não têm janelas, corredores azuis e brancos, os quartos em sequência, talvez quando nasci e consequentemente minha mãe faleceu minha tia

– Abra as janelas assim o quarto respira

correndo até o outro lado do cômodo e abrindo as janelas antes de mim num movimento brusco

– Assim

saindo apressada do hospital comigo em seu colo, minha sobrinha coitada não tinha mais ninguém, a Gabriela tão depressiva, dissemos à Clarice que ela morreu no parto mas a verdade é que jogou-se do quarto, não consigo entender o que chamam de depressão pós-parto, como uma mulher pode ficar daquele jeito depois de ter uma filha que deveria significar alegria, nossos primos vindo ao hospital onde a Gabriela já não estava, a polícia em volta, sacos plásticos pretos, a rua interditada, não abra a janela Clarice do contrário sua mãe

do contrário ela

melhor não dizer, morreu depois do parto minha filha e pronto, sempre lhe tratei

– Minha filha

embora quando das janelas

– Assim o quarto respira Clarice

nunca entendi o porquê de dormir com o quarto tão fechado, suava a camisola inteira, era preciso trocar-lhe os lençóis quase de dois em dois dias, fecho as janelas tia porque do contrário minha mãe

(contou-me certa vez um primo de vocês)

quer dizer fecho as janelas tia porque incomoda-me este vento todo, as cortinas batendo contra a parede, as corujas lá fora e penso que só aqui onde moro elas ainda existem, incomoda-me toda esta agitação noturna e por isso fecho as janelas, por isso e não porque do contrário minha mãe

(atira-se devo dizer?)

porque incomoda-me a agitação desta noite, não quero que a chuva espessa entre no quarto e cubra toda a areia e se misture com o mar e logo tudo negro à minha volta, corria com a Clarice no colo saindo do hospital horrorizada, os carros de polícia, nem sei se alguém prestou depoimento, talvez uma enfermeira, por sorte a Clarice já podia sair da incubadora e sendo assim

– Minha filha

levei-a para casa rapidamente, a Clarice embrulhada, a chuva espessa cobria meus olhos e misturava-se ao mar, abra as janelas Clarice e deixe-me entrar do contrário você

– Minha

deixe-me de janelas fechadas tia senão

deixe-me dormir do contrário as corujas já vêm e a noite agita-se insuportavelmente.

3 comentário(s); clique aqui para comentar:

vitrola disse...

cresci com essa ideia de cômodos sufocados após uma noite de sono

Hm!

que frase

bjokas!

Anônimo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Gleice disse...

Eu tb não abriria a janela. Há corujas lá fora.