– Abra as janelas assim o quarto respira
cresci com essa ideia de cômodos sufocados após uma noite de sono, abro as janelas levanto a tela de mosquitos e pronto eis o quarto respirando, eis o vento levantando as cortinas e secando a cama cheia de suor
– Como pode suar tanto durante a noite Clarice
posso, reviro-me durante a noite, esses pesadelos que não param de vir, repetem-se, estou correndo na praia e tanta chuva contra meus olhos, o céu escuro o mar escuro a espuma branca das ondas imensas, quantas ondas que vão tomando toda a areia, o nível do mar subindo e já não vejo meus pés, a chuva espessa como o mar, tudo cinza à minha volta e logo negro e logo minha tia abrindo a porta
– Como pode suar tanto
assustando-se mais uma vez com a cama molhada, criou-me sozinha dado que meu pai desconhecido e minha mãe morta no parto, como terá sido esse dia no hospital, uma vida chegando e outra partindo, terão comemorado meu nascimento, os hospitais que muitas vezes quase não têm janelas, corredores azuis e brancos, os quartos em sequência, talvez quando nasci e consequentemente minha mãe faleceu minha tia
– Abra as janelas assim o quarto respira
correndo até o outro lado do cômodo e abrindo as janelas antes de mim num movimento brusco
– Assim
saindo apressada do hospital comigo em seu colo, minha sobrinha coitada não tinha mais ninguém, a Gabriela tão depressiva, dissemos à Clarice que ela morreu no parto mas a verdade é que jogou-se do quarto, não consigo entender o que chamam de depressão pós-parto, como uma mulher pode ficar daquele jeito depois de ter uma filha que deveria significar alegria, nossos primos vindo ao hospital onde a Gabriela já não estava, a polícia em volta, sacos plásticos pretos, a rua interditada, não abra a janela Clarice do contrário sua mãe
do contrário ela
melhor não dizer, morreu depois do parto minha filha e pronto, sempre lhe tratei
– Minha filha
embora quando das janelas
– Assim o quarto respira Clarice
nunca entendi o porquê de dormir com o quarto tão fechado, suava a camisola inteira, era preciso trocar-lhe os lençóis quase de dois em dois dias, fecho as janelas tia porque do contrário minha mãe
(contou-me certa vez um primo de vocês)
quer dizer fecho as janelas tia porque incomoda-me este vento todo, as cortinas batendo contra a parede, as corujas lá fora e penso que só aqui onde moro elas ainda existem, incomoda-me toda esta agitação noturna e por isso fecho as janelas, por isso e não porque do contrário minha mãe
(atira-se devo dizer?)
porque incomoda-me a agitação desta noite, não quero que a chuva espessa entre no quarto e cubra toda a areia e se misture com o mar e logo tudo negro à minha volta, corria com a Clarice no colo saindo do hospital horrorizada, os carros de polícia, nem sei se alguém prestou depoimento, talvez uma enfermeira, por sorte a Clarice já podia sair da incubadora e sendo assim
– Minha filha
levei-a para casa rapidamente, a Clarice embrulhada, a chuva espessa cobria meus olhos e misturava-se ao mar, abra as janelas Clarice e deixe-me entrar do contrário você
– Minha
deixe-me de janelas fechadas tia senão
deixe-me dormir do contrário as corujas já vêm e a noite agita-se insuportavelmente.
5 meses atrás
3 comentário(s); clique aqui para comentar:
cresci com essa ideia de cômodos sufocados após uma noite de sono
Hm!
que frase
bjokas!
Eu tb não abriria a janela. Há corujas lá fora.
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